A guerra dos galpões: o que a disputa entre Mercado Livre e Shopee significa para o seller multicanal
Mercado Livre e Shopee estão travando uma disputa acirrada por espaço logístico no Brasil, o que impacta diretamente prazos, custos e competitividade para quem vende em múltiplos canais.

A resposta é direta: a competição entre Mercado Livre e Shopee por galpões logísticos está redefinindo a infraestrutura de entregas no Brasil, e isso afeta o seller multicanal no custo do frete, na velocidade de entrega e na pressão por eficiência operacional. Quem vende em múltiplos marketplaces precisa entender esse movimento para antecipar mudanças nas regras de fulfillment e proteger a margem real pedido a pedido.
Segundo levantamento da consultoria JLL divulgado pelo jornal O Globo, as duas empresas responderam por 33% de toda a absorção de galpões de alto padrão no primeiro semestre de 2026. Foram 2,1 milhões de metros quadrados efetivamente ocupados — o equivalente a mais de 260 campos de futebol. O Mercado Livre liderou com 23% desse total, enquanto a Shopee ficou com 10%. A taxa de vacância caiu para 5,5%, a menor da história, e 30% dos novos galpões previstos para o segundo semestre já estão pré-locados por essas duas companhias.
Por que isso importa para o seller
Quando um marketplace expande sua malha logística, ele ganha capilaridade para reduzir prazos de entrega e custos de frete — mas também impõe novos padrões de exigência. O seller que opera no Mercado Livre e na Shopee simultaneamente sente os efeitos dessa guerra de duas formas:
- Pressão no fulfillment: Com mais centros de distribuição, os marketplaces conseguem prometer entregas cada vez mais rápidas. Isso eleva a régua para o seller que faz envio próprio, que precisa igualar a performance para não perder visibilidade ou reputação.
- Custo do frete subsidiado: A lógica do frete grátis ou subsidiado depende de uma malha logística densa. Quanto mais galpões, mais rotas econômicas. O seller que adere a programas como Full (Mercado Livre) ou Coleta (Shopee) pode se beneficiar de tarifas menores, mas também perde controle sobre a experiência de entrega e precisa monitorar de perto as taxas e repasses.
O impacto na margem real
Para o seller multicanal, a decisão de usar ou não a logística do marketplace é um dos maiores drivers de lucro real. Cada pedido enviado pelo fulfillment do canal tem um custo que precisa ser auditado: taxa de armazenagem, manuseio, frete e possíveis glosas. A Jodda recomenda que o seller faça uma auditoria de repasse constante, comparando o custo logístico efetivo com o que foi descontado no repasse do marketplace. Diferenças de centavos por pedido, quando multiplicadas por milhares de SKUs, corroem a margem sem que o seller perceba.
Estratégia para um cenário de escassez
Com a taxa de vacância em mínima histórica, a disputa por espaço não se limita aos gigantes. Operadores logísticos e sellers de grande porte também enfrentam dificuldade para encontrar galpões disponíveis, especialmente em regiões estratégicas como Guarulhos (SP). Isso pode elevar o custo de armazenagem para quem mantém estoque próprio. A saída para o seller multicanal é avaliar o regime real do CNPJ e a curva ABC dos produtos: itens de alto giro podem ser alocados no fulfillment do marketplace para ganhar capilaridade, enquanto os de giro médio ou baixo permanecem em estoque próprio, desde que a estrutura de custos compense.
O que esperar do segundo semestre
A JLL aponta que 2,7 milhões de metros quadrados em novos galpões serão entregues até dezembro, mas 30% já estão comprometidos com Mercado Livre e Shopee. Isso indica que a pressão sobre os espaços remanescentes continuará alta. Para o seller, o recado é claro: revisite seus contratos de armazenagem, simule cenários de adesão ao fulfillment de cada canal e mantenha um DRE atualizado com a visão pedido a pedido. Em um mercado onde a logística dita a competitividade, a inteligência de lucro é o que separa o crescimento sustentável da operação no vermelho.